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Precisamos falar sobre a redução do uso de automóveis

É por isso que grandes causas demandam datas especiais para que se
olhe para elas com mais atenção pelo menos uma vez ao ano. Assunto
urgente a ser debatido em todo o mundo, a reflexão sobre o uso de
veículos de passeio para as locomoções diárias nas grandes cidades
ainda é escassa, mas trata-se de uma realidade inconveniente:
precisamos falar sobre a redução do uso individual de carros.

Seja pelo aspecto ambiental, de saúde pública ou do trânsito, o fato é
que a modalidade é de alto impacto para a coletividade. Na maior
metrópole do país, que abriga 25% da frota nacional de veículos, são quase 10 milhões de carros circulando – São Paulo tem praticamente
um carro para cada dois habitantes.
Isso faz com que os paulistanos percam quase três horas por dia no
trânsito, que 88% dos pedestres se sintam inseguros e que 44% dos
cidadãos enfrentem ou tenham tido problemas de saúde relacionados
à poluição, segundo estudo do Ibope Inteligência, encomendado em
2018 pela Rede Nossa São Paulo.

“Mas estamos falando de um aspecto cultural enraizado
em nossa sociedade, já que carros são vistos como um
objeto de desejo, status”

A facilidade de financiamento e a má qualidade no transporte público,
fora os receios com a segurança, também favorecem a adesão ao
modal do carro particular. É fundamental, por isso, o incentivo do
poder público para expansão de alternativas como a ciclomobilidade.
A União dos Ciclistas do Brasil (UCB) lançou recentemente, já durante
a pandemia, um documento com sugestões para adaptação das vias e
estruturas de mobilidade. Destacam-se pontos nevrálgicos como o
fato de o transporte público ter se tornado “vetor” de transmissão do
novo coronavírus, e que as bicicletas acabam se tornando a
alternativa mais viável para a parcela da população que não pode se
locomover por carro (próprio ou de aplicativo).
Pouco valorizado
O transporte por bicicleta não polui o ar, evita contato físico direto e
promove saúde e bem-estar. Além dos benefícios ambientais, a bike é
um veículo acessível e de baixo custo.
Em entrevista à Agência Brasil, Ana Carboni, diretora-presidente da
UCB, destacou que as bicicletas ainda são pouco valorizadas como
meio de transporte no país, tanto entre as pessoas quanto no
planejamento das cidades e das estruturas de mobilidade, apesar de
já serem numerosas. “A frota de bicicleta é maior do que a de automóveis. Contudo, o Brasil continua priorizando os veículos
individuais motorizados”, afirmou.

“80% da infraestrutura viária nas cidades é dedicada ao
carro e à moto, que transporta menos de 30% da
população. Existe um desequilíbrio muito grande”

Em relação às pessoas, cada um pode fazer a sua parte priorizando os
modais alternativos de locomoção dentro de suas possibilidades:
andar a pé, de patinete, bicicleta ou mesmo o transporte coletivo. Dar
carona para familiares e vizinhos (tomando as precauções da
pandemia, logicamente) também é uma boa iniciativa para reduzir o
número de carros e motos circulando nas cidades.
Mais ciclofaixas
As bicicletas também se tornaram opção de entregadores de
aplicativos na logística de delivery, incentivados pelo isolamento
social. Para otimizar as políticas de incentivo, a construção de
ciclofaixas é a iniciativa mais ágil e de baixo custo para as prefeituras e
órgãos de trânsito.
O documento da UCB sugere a sinalização com as cores amarelo e
vermelho, para remeter ao sinal de alerta e trazer mais contraste com
o pavimento. São sugeridas também barreiras móveis para reforçar a
demarcação e evitar acidentes causados por motoristas.
Outra alternativa é a ampliação de vias e espaços para os pedestres,
como foi feito em Brasília durante a pandemia, em alguns dias da
semana. Os defensores dos modais alternativos indicam que a adoção
desses recursos seja feita de maneira mais duradoura, para incentivar
a chamada mobilidade ativa.

“Menos carros circulando significam mais qualidade de
vida para as cidades”

Seja a pé, de bicicleta, ônibus, metrô ou de carona, o fato é que menos
carros circulando significam mais qualidade de vida para as cidades,
com menos poluição, menos trânsito e todos seus efeitos na
população. Que o exemplo do Dia Mundial Sem Carro possa
conscientizar cada vez mais pessoas e incentivar políticas públicas.

Beto Marcelino, colunista quinzenal do TecMundo, é engenheiro
agrônomo, sócio-fundador e diretor de relações governamentais do
iCities, empresa que organiza o Smart City Expo Curitiba, maior evento
do Brasil sobre cidades inteligentes com a chancela da FIRA Barcelona.

03/10/2020 • 3 min de leitura
Fonte: https://m.tecmundo.com.br/amp/mobilidade-urbana-smart-cities/204733-precisamos-falar-reducao-uso-automoveis.htm